Pesquisa mostra que 39% dos pais brasileiros já dão mesada aos filhos, mas especialista alerta que, sem orientação e limites claros, o aprendizado pode se perder
A mesada já faz parte da rotina de muitas famílias brasileiras. Segundo a pesquisa “Finanças para os Filhos: Dinheiro é Coisa de Adulto?”, realizada pela Serasa em parceria com o Instituto Opinion Box, 39% dos pais no Brasil têm o hábito de dar mesada aos filhos. O dado revela que o contato com o dinheiro começa cedo, mas também levanta uma questão importante: as crianças estão aprendendo a administrar recursos ou apenas consumindo?
Para a psicóloga e especialista em educação financeira infantil Priscila Rossi, idealizadora da Escola da Educação Financeira Infantil, a diferença está na forma como a mesada é conduzida dentro de casa. “Dar mesada sem regras é uma oportunidade desperdiçada. O dinheiro precisa vir acompanhado de orientação, combinados claros e reflexão sobre escolhas”, afirma.
Mesada não é prêmio, é ferramenta educativa
Historicamente, muitos pais associam a mesada a recompensas por bom comportamento ou cumprimento de tarefas. No entanto, essa lógica pode distorcer o propósito educativo do recurso.
De acordo com Priscila Rossi, a mesada deve simular, em escala infantil, o funcionamento do mundo real. “No mundo adulto, ninguém pode destinar 100% da renda para consumo imediato. Há contas, reservas, investimentos e até doações. Quando a criança aprende isso desde cedo, desenvolve noções de prioridade e consequência”, explica.
Essa abordagem ganha ainda mais relevância diante do cenário econômico brasileiro. Dados do Mapa da Inadimplência da Serasa indicam que milhões de brasileiros convivem com dívidas ativas, o que evidencia a fragilidade da educação financeira no país. Embora o levantamento trate da população adulta, o reflexo é comportamental e tem raízes na formação ainda na infância.
“Educação financeira não começa quando a pessoa recebe o primeiro salário. Começa quando ela entende que dinheiro envolve escolha, limite e planejamento”, ressalta a especialista.
Porque impor regras fortalece o aprendizado
Ao contrário do que alguns responsáveis imaginam, estabelecer regras para a mesada não retira a autonomia da criança. Pelo contrário, amplia sua capacidade de decisão dentro de parâmetros seguros.
Segundo Priscila, a ausência de orientação pode gerar três distorções principais:
- associação do dinheiro apenas ao consumo imediato
- dificuldade em lidar com frustração quando o recurso acaba
- falta de visão de longo prazo
“Quando a criança gasta tudo no primeiro dia e não tem mais nada até a próxima mesada, ela aprende sobre escassez, mas de forma desorganizada. Com orientação, ela aprende a planejar”, afirma.
A especialista destaca que impor regras é um reflexo da vida adulta. “Assim como os adultos precisam destinar seus recursos para necessidades prioritárias, conhecimento, investimentos e até filantropia, as crianças também se beneficiam ao aprender limites e escolhas.”
Como estruturar a mesada de forma educativa
Para que a mesada cumpra seu papel pedagógico, é fundamental que os pais estabeleçam critérios claros e objetivos. A divisão do valor em categorias pode ser uma estratégia eficaz.
Entre as orientações práticas defendidas pela especialista estão:
- Definir um valor fixo e uma periodicidade clara, semanal ou mensal
- Dividir a mesada em partes destinadas a consumo, reserva e objetivos futuros
- Estimular que a criança registre gastos, mesmo que de forma simples
- Conversar sobre decisões financeiras sem julgamento, incentivando reflexão
- Incluir uma pequena parcela para doações ou causas sociais, quando possível
“Não se trata de controlar cada centavo, mas de ensinar a criança a pensar antes de gastar. A regra não é punição, é estrutura”, reforça Priscila Rossi.
Impactos sociais e comportamentais no longo prazo
A educação financeira na infância tem impactos que vão além do dinheiro. Estudos sobre comportamento econômico apontam que hábitos adquiridos na infância tendem a se consolidar na vida adulta, influenciando padrões de consumo, poupança e tomada de decisão.
Para Priscila, o aprendizado também fortalece habilidades socioemocionais. “Quando a criança aprende a esperar para comprar algo maior, ela desenvolve autocontrole. Quando escolhe poupar para um objetivo, exercita planejamento. Isso vai muito além do valor em si.”
Em um contexto de transformações digitais, com acesso facilitado a compras online e pagamentos instantâneos, o contato precoce com dinheiro exige ainda mais acompanhamento. “O dinheiro deixou de ser apenas físico. Hoje ele está no cartão, no aplicativo, no clique. Por isso, a orientação precisa ser intencional”, alerta.
Mesada com propósito amplia a compreensão sobre o mundo financeiro
Para a especialista, o maior erro é tratar a mesada como algo isolado da realidade familiar. Transparência e diálogo são fundamentais para que a criança compreenda que o dinheiro é parte de um sistema maior.
“Quando os pais conversam sobre orçamento doméstico, metas e prioridades, a criança percebe que o dinheiro não é infinito. Isso cria consciência e responsabilidade”, afirma.
Ela conclui que a mesada com regras não reduz a liberdade, mas amplia o repertório financeiro da criança. “Estabelecer limites não prejudica a experiência com o dinheiro. Ao contrário, amplia a compreensão sobre responsabilidade, planejamento e o funcionamento do universo financeiro ao redor.”