InícioSaúdeO Perigo dos vírus respiratórios e o escudo da vacinação

O Perigo dos vírus respiratórios e o escudo da vacinação

Por: Fernanda de Lima Batista

O recente Boletim InfoGripe, divulgado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), acendeu um alerta vermelho para a saúde pública brasileira: os casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) em crianças menores de dois anos estão em alta preocupante. O principal vilão desse cenário é o Vírus Sincicial Respiratório (VSR), responsável por impressionantes 41,5% dos casos associados a vírus nas últimas semanas, seguido pela Influenza A (27,2%) e pelo rinovírus (25,5%). Esse panorama epidemiológico não é apenas uma estatística preocupante; é um reflexo direto de condições típicas do período e, acima de tudo, um chamado urgente para rediscutirmos como a sociedade compreende e enfrenta as infecções virais na infância.

O avanço desses quadros está ligado ao comportamento humano no inverno: a tendência de permanecermos em ambientes fechados e sem ventilação, somada à alta transmissibilidade desses agentes, cria o cenário perfeito para a propagação viral. O perigo é amplificado pela chamada ‘pneumonia silenciosa’, uma condição em que a oxigenação do sangue cai drasticamente sem que a criança apresente a clássica falta de ar imediata. Os sintomas das doenças respiratórias mais graves começam de forma comum, como um resfriado, mas evoluem para cansaço extremo, batimento das asas do nariz, afundamento das costelas ao respirar (tiragem intercostal), perda de apetite e desidratação. O momento de correr para a emergência é exatamente quando esses sinais de esforço respiratório e apatia se manifestam, pois cada minuto é crucial.

Diante do medo, contudo, a sociedade frequentemente recorre a uma ilusão terapêutica: a exigência de antibióticos. É comum observar a revolta de pais quando, após uma consulta médica, o profissional não prescreve esse tipo de medicamento. Essa reação nasce do desconhecimento biológico. Antibióticos combatem exclusivamente bactérias; contra vírus como o VSR, a Influenza e o rinovírus, eles são completamente inúteis e o seu uso indiscriminado ainda gera o grave problema da resistência bacteriana. É evidente que a avaliação médica é soberana e indispensável: cabe exclusivamente ao profissional realizar exames clínicos e laboratoriais para confirmar ou excluir uma coinfecção bacteriana e, se for o caso, receitar o antibiótico correto. O erro reside em pressionar por essa prescrição quando o diagnóstico aponta exclusivamente paraum quadro viral, situação em qu quem verdadeiramente combate e elimina a infecção é o nosso próprio sistema imunológico.

Portanto, o único e verdadeiro tratamento preventivo eficaz é a vacinação. A vacina é o caminho certo para treinar o organismo, deixando o sistema imune forte e preparado para reagir de forma rápida e precisa antes que o vírus cause estragos profundos. No caso do VSR, a imunização de gestantes e os anticorpos monoclonais para os bebês, somados à vacina da gripe, formam a verdadeira barreira de proteção. Enquanto a população enxergar o sucesso de uma consulta na quantidade de remédios prescritos, continuaremos vulneráveis. Afinal, proteger nossos filhos não é entupi-los de medicamentos desnecessários, mas sim garantir que o escudo da imunização esteja em dia. Resta a reflexão: até quando nossa cultura imediatista exigirá medicamentos desnecessários em vez de confiar no tempo do corpo e na verdadeira proteção que a vacina oferece?

Fernanda de Lima Batista – Biomédica, especialista em Hematologia e Banco de Sangue, mestranda em Genética na UFPR e professora do curso de Biomedicina na Escola Superior de Saúde da UNINTER.

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Equipe do Curiosando que desenvolve artigos dos mais variados temas.